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Ardia um fim de tarde vermelho. O homem em silêncio sentado no pier entre as gaivotas que disputam um arenque já destroçado que fora esquecido pelos pescadores, olhava o mar e ardia em lembranças, talvez visões.Aquele ser sofria da dor mais vil e gozava da felicidade mais viva, era parodoxo de si e do tempo, trazia impresso na alma versos de um velho poema escrito em tempos ancestrais e usado para lhe dar a vida.Jazia ali junto com a tarde, e a dor nas feridas que outrora o fogo lhe fizera estava ausente, havia um balsamo sobre cada uma das marcas. Aquela vida, se vida ainda, ou morte, se morte hovesse que pudesse conter o tempo, trazia em si a solidão e a companhia perfeita, o olho que tudo vê, a mente que tudo compreende, a magia e a sedução. Caídos sobre seu rosto fios de cabelos que ao sol dourados ficavam. Com seus olhos de criança pode ver quando um a um desceram à terra úmida e úmidos os seus olhos não puderam mais chorar consolados pela raiva e então sua alma resignou-se.Obstinado varreria o mundo, obcecado erraria muito mais que acertaria, mas chega um dia em que os erros ensinam e se deixa o que é próprio de criança para olhar para dentro do espelho e enxergar a verdade face a face. - Mas o que é a verdade? O arenque não mais existe e as gaivotas partem rumando para o sol.Ele se levanta e alguem de longe vê a sombra insignificante de um homem tomando o sol, a sombra da saudade o cobre e chove depois do eclipse.
criado por Marcelo Moro
14:52:44