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Sem respostas imediatas, a tarde passou bem rápido e o crepúsculo era um momento do dia em que ele gostava muito. O crepúsculo desse dia estava semeado de duvidas, tomado de decisões importantes, sair para rua e curtir o final de tarde seria o mais certo? Com certeza veria alguém e alguém o veria, se manter escondido seria o melhor caminho? Talvez sim, manter-se centrado no que lia e tentava decifrar poderia ser importante, mas se aparecesse a alguém poderia dar pistas e talvez chegasse até ele a idéia de quem seria o escritor de tantos segredos, talvez conseguisse ver sentido na busca que aquele homem havia feito pra chegar até ele. Resolveu sair, correria o risco ou apenas daria um passeio agradável por ruas e avenidas que ele não viam há bons anos, mas que também não mudaram tanto assim. Andou um ou dois quarteirões e foi tocado nos ombros, olhou rápido e seus olhos cruzaram com os de Débora, a Dé, amiga de adolescência, começo de juventude, louca companheira de baladas sem fim. – Cara é você mesmo?– disse tocando-lhe o rosto e a barba – Sim e você é você mesmo? – apontava o dedo pra moça. – Caro amigo, to muda, sem palavras – um pouco de emoção já tomava conta da cena. Um abraço seguido de muitos “há quanto tempo” de muitos “que surpresa” e de alguns “pensei que não fosse te ver nunca mais”. Nunca mais é tempo demais, assim como pra sempre. Em alguns minutos Dé contou-lhe os últimos anos e ele retribuiu dizendo meia dúzia de verdade enxertadas por duas dúzias e meia de mentiras. Seu retiro nos últimos anos não dizia respeito a ninguém nem mesmo a uma amiga antiga e confiável que visivelmente estava feliz e eufórica em vê-lo, não cansava de toca-lo parecendo que era preciso o toque para acreditar no que via. Fizeram perguntas difíceis um para o outro enquanto caminhavam pelo centro da cidade, era uma cena a parte daquela peça toda que se passava ao redor deles, todo aquele barulho e aquele movimento não tirava a atenção da conversa dos dois, as vezes e por muitas vezes sorriam, gargalhavam. Dé queria marcar uma cerveja, um vinho, um churrasco com antigos amigos, um bem vindo pela sua volta, e nessa hora ele precisou correr o risco de torna-la curiosa, ou de apenas contar com ela. Disse –lhe que não contasse a ninguém que tinha voltado, mas tomariam um vinho, talvez jantassem ele e ela.
Se despediram 45 minutos depois, Dé entrou no carro e ele rodou pela praça mais um vez, expondo-se, queria e temia essa exposição, precisava dela.
Em casa sobre a mesa os autos da fé imóveis, sem os olhos dele eram inanimados, mas apenas ao seu toque ganhavam vida, falavam coisas que a todos ainda eram ocultas. Por um momento diante do busto de um dos benfeitores da cidade ele teve a idéia que talvez aquele homem queria que seu dossiê fosse publicado, a verdade vindo à tona, mas em seguida e bem rápido percebeu que era tolice, o homem queria que a verdade fosse provada, mas como?
Aquele final de manhã do dia em que voltou pra casa realmente estava sendo surpreendente. Lá fora o tempo virara e garoava gelado, diante dos seus olhos os Autos da Fé esparramados sobre a mesa compunham um belo material, 81 laudas bem datilografadas em espaço uniforme e sem erros. A sua frente mais uma xícara de café, sei lá qual do dia, talvez a décima ou décima primeira, a leitura era interessante e intrigante, sólida e surreal, revelação suja e ao mesmo tempo tão previsível, o final de um homem que amou até o fim. Os Autos da fé não eram um romance, mas um dossiê então havia muita coisa desconexa, frases lançadas ao vento que formulavam enigmas e ele gostava de resolve-los, afinal juntava peças pequenas, só por diversão, compondo barcos dentro de garrafas. Na verdade o que ele procurava era a razão exata pela qual fora procurado pelo autor daquele sinistro texto, e qual seria a função dele de posse daquilo. Perguntas que até a pagina 41 continuavam totalmente sem resposta. Descobrira apenas que tudo, exatamente tudo o que constava do processo oficial que estava arquivado há anos era mentira. Todo um teatro fora forjado, enquanto a verdade ficava atrás de uma cortina grossa, densa e gordurosa e dominada por meia dúzia de mentes sujas e poderosas. Amplos setores estavam envolvidos até o pescoço mesmo que por poucos, bem poucos, dos seus membros. Começara a lembrar do olhar azul profundo da mãe e a dor que ele transmitia deixando transbordar lágrimas silenciosas que molhavam o preto do tecido que lhe formava o vestido, dor amparada pela palavra e pelo amor pregado pelo filho que jazia ali imóvel sem que ao menos pudesse ser colocado no seu colo, doce Maria em mais um momento de dor inigualável. Sorrateiro o diabo deslizava por trás das pessoas e dos jazigos, encapuzado trazia um sorriso de gozo e um circo de horrores, alegria incontida de colorido mórbido, e apenas o olhar de criança dele que contemplava essa cena coadjuvante. Então foi por isso que algo contido na pagina 42 lhe chamou a atenção, o autor daquele dossiê, por ventura poética, coincidência ou qualquer coisa de outra natureza que as vezes não se sabe precisar narrava o que viera –lhe a mente, como lembrança daquele dia do final de um Julho qualquer, de um julho frio e inclemente. O passeio do diabo e de seu sinistro espetáculo não fora somente uma visão de um menino atormentado com um funeral, mas uma realidade também para um homem que sabia demais, mas quem é esse homem?