16.10.06
Autos da Fé - Episódio 4
Sem respostas imediatas, a tarde passou bem rápido e o crepúsculo era um momento do dia em que ele gostava muito. O crepúsculo desse dia estava semeado de duvidas, tomado de decisões importantes, sair para rua e curtir o final de tarde seria o mais certo ? Com certeza veria alguém e alguém o veria, se manter escondido seria o melhor caminho? Talvez sim, manter-se centrado no que lia e tentava decifrar poderia ser importante, mas se aparecesse a alguém poderia dar pistas e talvez chegasse até ele a idéia de quem seria o escritor de tantos segredos, talvez conseguisse ver sentido na busca que aquele homem havia feito pra chegar até ele. Resolveu sair, correria o risco ou apenas daria um passeio agradável por ruas e avenidas que ele não viam há bons anos mas que também não mudaram tanto assim. Andou um ou dois quarteirões e foi tocado nos ombros, olhou rápido e seus olhos cruzaram com os de Débora, a Dé, amiga de adolescência, começo de juventude, louca companheira de baladas sem fim. – Cara é você mesmo ?– disse tocando-lhe o rosto e a barba – Sim e você é você mesmo? – apontava o dedo pra moça. – Caro amigo, to muda, sem palavras – um pouco de emoção já tomava conta da cena. Um abraço seguido de muitos “há quanto tempo” de muitos “que surpresa” e de alguns “pensei que não fosse te ver nunca mais”. Nunca mais é tempo demais, assim como pra sempre. Em alguns minutos Dé contou-lhe os últimos anos e ele retribuiu dizendo meia dúzia de verdade enxertadas por duas dúzias e meia de mentiras. Seu retiro nos últimos anos não dizia respeito a ninguém nem mesmo a uma amiga antiga e confiável que visivelmente estava feliz e eufórica em vê-lo, não cansava de toca-lo parecendo que era preciso o toque para acreditar no que via. Fizeram perguntas difíceis um para o outro enquanto caminhavam pelo centro da cidade, era uma cena a parte daquela peça toda que se passava ao redor deles, todo aquele barulho e aquele movimento não tirava a atenção da conversa dos dois, as vezes e por muitas vezes sorriam, gargalhavam. Dé queria marcar uma cerveja, um vinho, um churrasco com antigos amigos, um bem vindo pela sua volta, e nessa hora ele precisou correr o risco de torna-la curiosa, ou de apenas contar com ela. Disse –lhe que não contasse a ninguém que tinha voltado, mas tomariam um vinho, talvez jantassem ele e ela.
Se despediram 45 minutos depois, Dé entrou no carro e ele rodou pela praça mais um vez, expondo-se, queria e temia essa exposição, precisava dela.
Em casa sobre a mesa os autos da fé imóveis, sem os olhos dele eram inanimados, mas apenas ao seu toque ganhavam vida, falavam coisas que a todos ainda eram ocultas. Por um momento diante do busto de um dos benfeitores da cidade ele teve a idéia que talvez aquele homem queria que seu dossiê fosse publicado, a verdade vindo à tona, mas em seguida e bem rápido percebeu que era tolice, o homem queria que a verdade fosse provada, mas como ?

-
criado por Marcelo Moro
16:24:15