Futuro do Pretérito

MARCELO MORO WEB BLOG - "Um teatro das minhas ousadias"

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Arquivo de: Outubro 2006, 11

11.10.06

Autos da Fé - Episódio 3

Aquele final de manhã do dia em que voltou pra casa realmente estava sendo surpreendente. Lá fora o tempo virara e garoava gelado, diante dos seus olhos os Autos da Fé esparramados sobre a mesa compunham um belo material, 81 laudas bem datilografadas em espaço uniforme e sem erros. A sua frente mais uma xícara de café, sei lá qual do dia, talvez a décima ou décima primeira, a leitura era interessante e intrigante, sólida e surreal, revelação suja e ao mesmo tempo tão previsível, o final de um homem que amou até o fim. Os Autos da fé não eram um romance mas um dossiê então havia muita coisa desconexa, frases lançadas ao vento que formulavam enigmas e ele gostava de resolve-los, afinal juntava peças pequenas, só por diversão, compondo barcos dentro de garrafas. Na verdade o que ele procurava era a razão exata pela qual fora procurado pelo autor daquele sinistro texto, e qual seria a função dele de posse daquilo. Perguntas que até a pagina 41 continuavam totalmente sem resposta. Descobrira apenas que tudo, exatamente tudo o que constava do processo oficial que estava arquivado há anos era mentira. Todo um teatro fora forjado, enquanto a verdade ficava atrás de uma cortina grossa, densa e gordurosa e dominada por meia dúzia de mentes sujas e poderosas. Amplos setores estavam envolvidos até o pescoço mesmo que por poucos, bem poucos, dos seus membros. Começara a lembrar do olhar azul profundo da mãe e a dor que ele transmitia deixando transbordar lágrimas silenciosas que molhavam o preto do tecido que lhe formava o vestido, dor amparada pela palavra e pelo amor pregado pelo filho que jazia ali imóvel sem que ao menos pudesse ser colocado no seu colo, doce Maria em mais um momento de dor inigualável. Sorrateiro o diabo deslizava por trás das pessoas e dos jazigos, encapuzado trazia um sorriso de gozo e um circo de horrores, alegria incontida de colorido mórbido, e apenas o olhar de criança dele que contemplava essa cena coadjuvante. Então foi por isso que algo contido na pagina 42 lhe chamou a atenção, o autor daquele dossiê, por ventura poética, coincidência ou qualquer coisa de outra natureza que as vezes não se sabe precisar narrava o que viera –lhe a mente, como lembrança daquele dia do final de um Julho qualquer, de um julho frio e inclemente. O passeio do diabo e de seu sinistro espetáculo não fora somente uma visão de um menino atormentado com um funeral, mas uma realidade também para um homem que sabia demais, mas quem é esse homem ?
  • criado por  Marcelo Moro criado por Marcelo Moro
  • Postado em 18:19:38