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“...me mostre então a ida sem razão”(Plebe Rude)
Nas horas de estrada a vida toda passou como um filme de ação na sua retina. Não poderia acreditar que conceberia voltar assim por causa de uma loucura sem sentido, um doido brincando com doidos. Era madrugada alta e ele pode sentir o cheiro da cidade que foi sua casa por toda a vida e que ainda era no coração, chegar por aquelas ruas tinha a mesma sensação de voltar do exílio, um auto-exílio inocente, tinha vontade de rever amigos, gente que há muito não via e que eram importantes, mas não estava certo se isso seria possível. Subiu as escadas e colocou a chave na porta da kit, havia anos que não experimentava aquela sensação, entrou e pode ver que tudo estava no lugar, aquilo que sempre fora um estúdio de trabalho mais que uma casa era cuidado por uma pessoa de extrema confiança e durante todos esses anos foi limpo, arrumado como se ainda morasse ali. Seria uma surpresa para o velho empregado, mais que isso, bem mais , velho amigo, talvez ligasse para que não viesse por aqueles dias, mas sentia –se cansado do exílio. Sentou na poltrona e tomou nas mãos um velho vinil, colocando –o no som fechou os olhos e adormeceu ao som de “On the turning away”. Foi despertado com uma grande xícara de café forte, cheiroso que o amigo trazia nas mãos, percebeu que estava coberto e sem sapatos, carinho de anos amolece até aquele coração tomado por tantos outros sentimentos, um sorriso de menino nas retinas do velho, um sorriso já de muito tempo nas retinas do menino, um abraço forte, a gargalhada e duas lagrimas. Conversaram um pouco e o velho lhe entregou um envelope pardo, havia chegado na semana anterior, talvez há 15 dias, junto com as peças do Colombo, estranho mas fazia sentido. Abriu, havia uma chave presa com dupla face por dentro, uma chave pequena e nela escrito em uma etiqueta “aqui jaz a Avó”, um silêncio seguido de uma saída brusca pela porta, ainda deu tempo de ouvir o amigo: - Você volta para o almoço? – e de responder:- Não se preocupe. Retirou o encerado que cobria a moto, tão bem cuidada quanto a casa, conferiu se havia combustível e ligou, atravessou as ruas e avenidas do centro da cidade com grande rapidez quase uma sofreguidão, chegou minutos depois ao portão do cemitério e comprou flores, entrou pelo portão principal e tomou a segunda alameda a esquerda, dois jazigos antes de terminar a alameda jazia a Avó. Fez uma oração rápida enquanto observava os arredores , ninguém naquela manhã ensolarada, colocou o vaso com flores sobre o tumulo e abaixado colocou a chave no cadeado, girou e o cadeado abriu-se, tateou por dentro, uma ou duas baratas correram da sua mão e o tocaram com as antenas, estava tão obcecado que nem sentiu, estava quase deitado já quando tocou algo preso no teto das carneiras, puxou e viu um envelope, pardo , padrão do jogador, trouxe pra fora e constatou um grande volume de folhas dentro do envelope que rasgara na tentativa de desprende-lo. No verso do envelope com a mesma letra dos bilhetes, do verso da foto e da etiqueta na chave estava escrito em vermelho, Autos da Fé.