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Para que o inferno se feche e o céu se abra, é necessária esta fogueira.
Porque
O inferno de uma hora anula o inferno eterno
O pecado arde com o vil andrajo carnal
E a alma sai, esplêndida e pura, da sua chama
Porque a água lava o corpo, mas o fogo lava a alma
1498
Tomás de Torquemada
inquisidor-geral de Espanha
Olhou, puxou a linha e a velas se ergueram, fez um belo arremate com o que sobrou do cordão enrolando-o a boca da garrafa, uma ultima conferida e pronto, pôde colocar a rolha, erguer e contemplar o belo galeão dentro do vasilhame de um vinho barato. Batizou –o de Colombo. Aquele seu hobby de construir navios dentro de garrafas era antigo e aprimorava-se a cada dia. Colombo ficara divino, uma verdadeira obra de arte, ele colocou-o no móvel antigo da copa de modo que a proa ficasse voltada para o Norte, onde uma enorme porta de vidro revelava o mar azul que dourado ia ficando ao cair da tarde. Sentou-se um pouco na varanda e tomou nas mãos pela milésima vez aquela foto enigmática, quem quer que a tivesse enviado sabia de coisas importantes e se escondia atrás de duas possibilidades; ou realmente tinha interesse em justiça, ou trabalhava em uma armadilha para pegá-lo. Dúvidas e dívidas com o passado assombravam sua mente e aquele refugio de fim de mundo já não era mais tranqüilo e calmo como há duas semanas quando recebera de forma inusitada aquela foto e dois bilhetes. Um pacote deixado por um entregador continha peças para montagem de um navio, incluindo a garrafa e dentro da garrafa a foto e os bilhetes. Quem quer que fosse o desgraçado dono dessa zorra toda o conhecia, conhecia seus hábitos de exilado, de naufrago que por livre e espontânea vontade havia queimado os navios que pudessem leva-lo de volta ao mundo, mas ali haviam estradas e o perigo de voltar já ocupava grande parte do seu dia. Um dos bilhetes dizia apenas, Você ainda pode fazer justiça, o outro era uma pequena nota de jornal que dizia que um corpo de um indigente fora encontrado as margens de uma estrada no interior do estado. Nada relevante, ligava à foto que era do funeral desse “indigente” que de indigente não tinha nada. Olhou de novo para a foto e viu mais uma vez a criança circundada de caneta vermelha, entre todos os presentes era ele mesmo quando criança que interessava ao emissário daqueles mistérios. Mas porque? Pergunta que não calava e a estrada o chamava novamente. Havia um terceiro detalhe, uma anotação no verso da foto. “ nada que foi dito é verdade, mas muitas pessoas a conhecem e escondem... você receberá mais informações se dignar-se a pegar a estrada.” Intimo e indecente, a estrada representava muito mais que um simples caminho que leva a algum lugar físico. Levantou-se e jogou as malas no carro. Iria sentar e esperar por coisas novas no seu velho lugar.