Futuro do Pretérito

MARCELO MORO WEB BLOG - "Um teatro das minhas ousadias"

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Arquivo de: Setembro 2006

29.09.06

A noite que o pierot deseja com a naufraga

que a noite seja linda! porque meu amor por vc é lindo
que seja leve, porque é um sentimento nobre
que não seja breve, porque precisamos de tempo pra estarmos juntos
que seja eterna , como é eterno esse amor
que deixe habitar o sol mesmo que de noite, porque precisamos dessa luz e calor
que mesmo assim haja lua, porque é a lua o mito que me inspira
que seja tudo perfeito, porque vc é perfeita
que seja a melhor noite do mundo, feita para a melhor mulher do mundo
que haja girassóis , porque eu e vc gostamos
que haja café forte e meio amargo, porque é nosso estilo
que haja rock do bom , porque me faz viajar
que haja eletronico do melhor, porque te faz dançar
que haja um sabor especial, porque vc é sal e mel
que todas as sensações se agucem , porque gostamos de senti-las
que haja os melhores beijos, porque são os melhores mesmo
que haja Deus , porque nós dois cremos
que haja magia, porque um pedaço de nós é mágico
que não falte nada , porque hoje é sexta
que não falte nada, porque todos os dias isso é o mais importante
que haja amor, porque eu te amo mais que tudo
que haja riso, porque enobrece
que hajam gargalhadas, porque divertem

que seja lido a noite, senão perde a graça

  • criado por  Marcelo Moro criado por Marcelo Moro
  • Postado em 23:49:02

28.09.06

Autos da Fé - Episódio 2

“...me mostre então a ida sem razão”(Plebe Rude)


Nas horas de estrada a vida toda passou como um filme de ação na sua retina. Não poderia acreditar que conceberia voltar assim por causa de uma loucura sem sentido, um doido brincando com doidos. Era madrugada alta e ele pode sentir o cheiro da cidade que foi sua casa por toda a vida e que ainda era no coração, chegar por aquelas ruas tinha a mesma sensação de voltar do exílio, um auto-exílio inocente, tinha vontade de rever amigos, gente que há muito não via e que eram importantes, mas não estava certo se isso seria possível. Subiu as escadas e colocou a chave na porta da kit, havia anos que não experimentava aquela sensação, entrou e pode ver que tudo estava no lugar, aquilo que sempre fora um estúdio de trabalho mais que uma casa era cuidado por uma pessoa de extrema confiança e durante todos esses anos foi limpo, arrumado como se ainda morasse ali. Seria uma surpresa para o velho empregado, mais que isso, bem mais , velho amigo, talvez ligasse para que não viesse por aqueles dias, mas sentia –se cansado do exílio. Sentou na poltrona e tomou nas mãos um velho vinil, colocando –o no som fechou os olhos e adormeceu ao som de “On the turning away”. Foi despertado com uma grande xícara de café forte, cheiroso que o amigo trazia nas mãos, percebeu que estava coberto e sem sapatos, carinho de anos amolece até aquele coração tomado por tantos outros sentimentos, um sorriso de menino nas retinas do velho, um sorriso já de muito tempo nas retinas do menino, um abraço forte, a gargalhada e duas lagrimas. Conversaram um pouco e o velho lhe entregou um envelope pardo, havia chegado na semana anterior, talvez há 15 dias, junto com as peças do Colombo, estranho mas fazia sentido. Abriu, havia uma chave presa com dupla face por dentro, uma chave pequena e nela escrito em uma etiqueta “aqui jaz a Avó”, um silêncio seguido de uma saída brusca pela porta, ainda deu tempo de ouvir o amigo: - Você volta para o almoço? – e de responder:- Não se preocupe. Retirou o encerado que cobria a moto, tão bem cuidada quanto a casa, conferiu se havia combustível e ligou, atravessou as ruas e avenidas do centro da cidade com grande rapidez quase uma sofreguidão, chegou minutos depois ao portão do cemitério e comprou flores, entrou pelo portão principal e tomou a segunda alameda a esquerda, dois jazigos antes de terminar a alameda jazia a Avó. Fez uma oração rápida enquanto observava os arredores , ninguém naquela manhã ensolarada, colocou o vaso com flores sobre o tumulo e abaixado colocou a chave no cadeado, girou e o cadeado abriu-se, tateou por dentro, uma ou duas baratas correram da sua mão e o tocaram com as antenas, estava tão obcecado que nem sentiu, estava quase deitado já quando tocou algo preso no teto das carneiras, puxou e viu um envelope, pardo , padrão do jogador, trouxe pra fora e constatou um grande volume de folhas dentro do envelope que rasgara na tentativa de desprende-lo. No verso do envelope com a mesma letra dos bilhetes, do verso da foto e da etiqueta na chave estava escrito em vermelho, Autos da Fé.

  • criado por  Marcelo Moro criado por Marcelo Moro
  • Postado em 16:59:49

27.09.06

Autos da Fé - Episódio 1

Para que o inferno se feche e o céu se abra, é necessária esta fogueira.
Porque
O inferno de uma hora anula o inferno eterno
O pecado arde com o vil andrajo carnal
E a alma sai, esplêndida e pura, da sua chama
Porque a água lava o corpo, mas o fogo lava a alma
1498
Tomás de Torquemada
inquisidor-geral de Espanha

 

Olhou, puxou a linha e a velas se ergueram, fez um belo arremate com o que sobrou do cordão enrolando-o a boca da garrafa, uma ultima conferida e pronto, pôde colocar a rolha, erguer e contemplar o belo galeão dentro do vasilhame de um vinho barato. Batizou –o de Colombo. Aquele seu hobby de construir navios dentro de garrafas era antigo e aprimorava-se a cada dia. Colombo ficara divino, uma verdadeira obra de arte, ele colocou-o no móvel antigo da copa de modo que a proa ficasse voltada para o Norte, onde uma enorme porta de vidro revelava o mar azul que dourado ia ficando ao cair da tarde. Sentou-se um pouco na varanda e tomou nas mãos pela milésima vez aquela foto enigmática, quem quer que a tivesse enviado sabia de coisas importantes e se escondia atrás de duas possibilidades; ou realmente tinha interesse em justiça, ou trabalhava em uma armadilha para pegá-lo. Dúvidas e dívidas com o passado assombravam sua mente e aquele refugio de fim de mundo já não era mais tranqüilo e calmo como há duas semanas quando recebera de forma inusitada aquela foto e dois bilhetes. Um pacote deixado por um entregador continha peças para montagem de um navio, incluindo a garrafa e dentro da garrafa a foto e os bilhetes. Quem quer que fosse o desgraçado dono dessa zorra toda o conhecia, conhecia seus hábitos de exilado, de naufrago que por livre e espontânea vontade havia queimado os navios que pudessem leva-lo de volta ao mundo, mas ali haviam estradas e o perigo de voltar já ocupava grande parte do seu dia. Um dos bilhetes dizia apenas, Você ainda pode fazer justiça, o outro era uma pequena nota de jornal que dizia que um corpo de um indigente fora encontrado as margens de uma estrada no interior do estado. Nada relevante, ligava à foto que era do funeral desse “indigente” que de indigente não tinha nada. Olhou de novo para a foto e viu mais uma vez a criança circundada de caneta vermelha, entre todos os presentes era ele mesmo quando criança que interessava ao emissário daqueles mistérios. Mas porque? Pergunta que não calava e a estrada o chamava novamente. Havia um terceiro detalhe, uma anotação no verso da foto. “ nada que foi dito é verdade, mas muitas pessoas a conhecem e escondem... você receberá mais informações se dignar-se a pegar a estrada.” Intimo e indecente, a estrada representava muito mais que um simples caminho que leva a algum lugar físico. Levantou-se e jogou as malas no carro. Iria sentar e esperar por coisas novas no seu velho lugar.










  • criado por  Marcelo Moro criado por Marcelo Moro
  • Postado em 16:10:47

22.09.06

Teatro de ousadias

Quando me encontro bêbado

Também me acho clássico

Um vinho qualquer numa viela de Florença

Um florin por alguns pensamentos da renascença

O cómico e o trágico

E se no ultimo ato

me jogo voando cego , ícaro em chamas

Antes de tocar o chão me salvas

recolhendo -me nu em suas asas

e voando comigo pelo céu do sertão

me mostra o vinho dos pampas, sua casa

  • criado por  Marcelo Moro criado por Marcelo Moro
  • Postado em 23:02:53

21.09.06

Autos da Fé - Prólogo

Ardia um fim de tarde vermelho. O homem em silêncio sentado no pier entre as gaivotas que disputam um arenque já destroçado que fora esquecido pelos pescadores, olhava o mar e ardia em lembranças, talvez visões.Aquele ser sofria da dor mais vil e gozava da felicidade mais viva, era parodoxo de si e do tempo, trazia impresso na alma versos de um velho poema escrito em tempos ancestrais e usado para lhe dar a vida.Jazia ali junto com a tarde, e a dor nas feridas que outrora o fogo lhe fizera estava ausente, havia um balsamo sobre cada uma das marcas. Aquela vida, se vida ainda, ou morte, se morte hovesse que pudesse conter o tempo, trazia em si a solidão e a companhia perfeita, o olho que tudo vê, a mente que tudo compreende,  a magia e a sedução. Caídos sobre seu rosto fios de cabelos que ao sol dourados ficavam. Com seus olhos de criança pode ver quando um a um desceram à terra úmida e úmidos os seus olhos não puderam mais chorar consolados pela raiva e então sua alma resignou-se.Obstinado varreria o mundo, obcecado erraria muito mais que acertaria, mas chega um dia em que os erros ensinam e se deixa o que é próprio de criança para olhar para dentro do espelho e enxergar a verdade face a face. - Mas o que é a verdade?  O arenque não mais existe e as gaivotas partem rumando para  o sol.Ele se levanta e alguem de longe vê a sombra insignificante de um homem tomando o sol,  a sombra da saudade o cobre e chove depois do eclipse.

  • criado por  Marcelo Moro criado por Marcelo Moro
  • Postado em 14:52:44