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A morte é uma coisa à toa. Somos todos muito diferentes na forma como pensamos na morte, Jorge a vê como redenção, Andrey se ocupa com a morte dos outros e meu assassino com a minha. Eu conheci um suícida, ele acreditava na vida após a morte, Humberto Gessinger, grande poeta concreto, fala que "todo suícida acredita na vida depois da morte, pois a vida quando acaba cabe em qualquer lugar". Esse meu amigo foi o único suícida que conheci, é claro que nesse mundo, pois ao lado da serpente que mora nos jardins da Abadia existem muitos, todos como ela feito de substância etérea. Esse amigo quando se encontrou com a morte, quando passou por suas horas de "Getsêmani", suou um poema feito de suor e sangue. Um dia talvez eu o grafite aqui nas paredes da Abadia, talvez nunca, o fato é que ele está comigo e os outros que estavam comigo naquele dia fatídico o apelidaram de poema maldito. Sinceramente o nome não é esse, e prefiro o original "canto para minha paz" que todos ignoram.
O olhar pra uma janela , na diagonal do tempo
o vento veloz , azul pensamento atroz
Sei que tuas mãos manejam o fogo
Sei que o tom triste desse sorriso esconde desejos
Enigma pra onde corro quando sofro
Decifrar-te seria querer-te
Sabiam meus olhos quando fizeram contato
Mesmo assim arriscado e feliz
Deixei - te passear entre as minhas flores
Desorganizados girassóis, óleo sobre tela
Imaginar cheiros e gestos torna-se doutrina dos versos
Ser livre para dançar em torno da fogueira, acaso
Os vales e campos são seus olhando da escarpa
Seus olhos são os que varrem a solidez da tarde
Preciptando a noite surreal
Onde estrelas e velhos marinheiros se amam
Onde poetas e sorrisos ocultos se encontram
Mesmo que seja no recôndito remoto da alma
Mesmo que sejam nas paginas de um livro
Mesmo que sejam em pedaços pequenos de vidro
Perdido em meio a um labirinto de livros, sentado na mesma mesa de madeira de lei manejava a pena com destreza o poeta. De seu espírito brotava mais um jogo de palavras, mais um poema para a amada musa, mais uma série de definições, feliz esse dom de definir sentimentos, pessoas são óbvias na sua maioria, sentimentos são ímpares. Era um final de tarde desses onde o vento começa a trazer a maresia e a praia deserta também vai ficando gelada, o céu mostrava um laranja impossivel de se conceber à mão livre. Escondeu rápido os papéis ao ouvir ranger a escada, e lá vinha ela trazendo o melhor café do mundo na hora mais própria do mundo e sempre fora assim, sintonia cumplice. os dois ficaram por ali olhando juntos o laranja do céu e as ondas cada vez mais crispadas do mar da tarde daquele paradisíaco final de mundo. Sozinho de novo o poeta continuou sua obra, há, nem se sabe, quantos anos aquela cena se repetia, as linhas escritas por ele sempre compunham uma surpresa para ela, toda sua obra, toda sua vida. A musa primeira e eterna, significado da sensação amor, inspiração, nunca confirmara que o amava, nunca o dissera, mas a certeza era tanta que o silencio que se seguia após seu sonoro "Eu te Amo" era insignificante e revelador. Privado de ouvir da boca amada o verbo mais doce o poeta sentia, no sabor da sua comida, no aconchego do seu café, na liberdade do seu sexo, na pureza com que depois do banho aparecia vestida com uma flor na cabeça, na intensidade do seu cheiro, do cheiro de suas lavandas, no seu andar....sentia através do silencio tão bem sinalizado que o amor ali residia e sim, amor por ele. Amor eterno que se guia pelas estrelas.
Ontem a noite meu assassino particular esteve na Abadia. Sua aparição sinistra desfiando sua silhueta por detras das pessoas foi de congelar os ossos, mas eu sou frio e o conhaque desceu na mesma velocidade de sempre. Atras de mim o quadro, a dor como chamamos eu e o poeta, vai mudando sempre sua expressão e significado, acho que isso é natural das imagens que é o contrário dos assassinos, que predestinados, não mudam sua intenção. A serpente sempre usando bom latim sopra no meu ouvido :- tens medo? - impassivo respondo que não. - Até Ele temeu no jardim nas oliveiras, suou sua morte ali - A serpente conhece meus pensamentos e é muito ardilosa. - Antes que use meu medo para me tentar cala-te serpente infame- Afastada ela passou a me olhar do jardim, ao lado do meu assassino e por detras das pessoas.
* antes que surja a pergunta, sim esse meu assassino é real , ele existe.
Câmera lenta,
Leitura labial de um sorriso, essa noite doce véu sobre a cidade, estrelas e caos, inspiração ...saudade!